Ritmo musical convive com violência, permissividade e uso de drogas.

Por que o funk vem sendo demonizado por centenas de ONGs? Para combatê-lo já surgiu até mesmo uma federação de ONGs anti-funk, a Fafec. Segundo esse amplo espectro de organizações não-governamentais, o Brasil musical, na era do funk, parece estar voltando à pré-história. Na sua definição, o funk produz um desprezível tipo de barulho que ignora os instrumentos musicais, apoiando-se apenas numa simples mesa de som, com seus botões de mixers. Enfim, na visão radical dessa federação de ONGs, o ruído produzido pelo funk seria uma barreira para a criatividade e uma agressão à sensibilidade humana. Na essência, uma pífia antimúsica que mereceria ser exterminada, conforme proclamam através de suas páginas na Internet.

Mas o libelo anti-funk vai muito além dos aspectos meramente musicais. A atual trajetória do ritmo importado das ruas de Nova York mostra seu verdadeiro papel no crescimento da criminalidade nas grandes cidades brasileiras. Com o funk, dizem vários pesquisadores da área social, o país vai coexistindo com a violência, a livre apologia do crime, a exaltação das máfias do pó e o mais abjeto aviltamento da mulher. No rastro do funk-maldade, também há uma enorme legião de jovens drogados, assassinados, adolescentes arrastadas para a gravidez precoce ou, simplesmente, cooptadas para o tráfico de entorpecentes. Já existe até mesmo uma banda, o Planet Hemp (maconha, em inglês), que faz uma aberta apologia do uso de drogas. O maior sucesso do grupo diz textualmente: "Lá só tinha maconha/ eu acho que o bagulho é que dá pé..."

A qualidade musical, que no passado era uma exigência das gravadoras tradicionais, no caso do funk já não é mais relevante. Para as multinacionais, que estão ganhando rios de dinheiro com o som nascido nas mesas de mixers, o que importa é faturar, ainda que através da pornografia presente nas mais repulsivas letras funkeiras. As mulheres, que antes eram exaltadas na música romântica brasileira, agora com os CDs do funk são incitadas a latir como cachorro ou chamadas a aceitar que "um tapinha no bumbum não dói".

Nascido nos Estados Unidos, em 1967, com o grupo Sly and The Family Stone, o funk ganhou força com o aparecimento das discotecas em Nova York, por volta de 1975. Elas passariam a tirar partido da movimentação corporal permitida pelo novo ritmo, atraindo com isso multidões de jovens. Era também uma espécie de malhação que prescindia das academias. Em 1978 surge o rap (rhythm and poetry), que, além da linguagem do corpo, o break dance, trazia o modismo das pichações e incorporava um vestuário não convencional: bermudões bizarros, tênis de basquete, camisas coloridas e o uso dos bonés com a aba para trás. Logo após surgiria o funk violento que defende o uso de drogas, ataca a polícia e a burguesia. Começa então uma longa trajetória de violência e assassinatos. Um aberrante contraste com o gospel, a música dos negros nas igrejas batistas norte-americanas, do qual descendia. Ou, bem antes, o ritmo dos negros escravos empregados nos campos de algodão do sul dos Estados Unidos.

Ao chegar ao Brasil, aportou nos subúrbios do Rio de Janeiro através de Tim Maia e Tony Tornado por volta de 1974, e logo passaria às favelas. Suas letras exaltavam a comunidade, mas ignoravam a pornografia e combatiam a violência. Uma delas dizia: "O nosso baile vai ficar mais divertido/ se pararmos com briga / e ficarmos mais unidos".

Poder político

Logo, porém, o funk iria conhecer um irreversível processo de degradação, nascido basicamente da tolerância e por vezes da conivência com que os governos tratavam o tráfico de drogas. Foi no tempo em que inúmeros traficantes, como Denis da Rocinha, no Rio, na condição de presidentes de morro, ganharam incomensurável poder político e se transformaram em importantes cabos eleitorais de governadores, deputados e prefeitos. A partir de então o crime, que em décadas anteriores era uma atividade escoteira, vai se organizar. Nasce o funk-bandido, que se torna quase sinônimo de drogas, assassinatos e chacinas. Mas esse contubérnio de alguns partidos políticos com os chamados chefes das favelas também teria graves conseqüências sobre o enorme incremento da corrupção policial. Governadores chegam a proibir através de decretos que a polícia suba nos morros. Então, a parte podre do efetivo policial sente-se liberada para participar de algum modo da espúria aliança. Passa a achacar as bocas-de-fumo ante a certeza da impunidade.

Com o virtual pacto político, que assegurava uma espécie de bill de indenidade aos criminosos, iria crescer o comércio das drogas, e conseqüentemente o poder financeiro do tráfico. Agora era possível levar aos morros e bairros populares uma desconhecida tecnologia eletrônica – sedutores estroboscópios, espetaculares mesas de som, poderosas caixas amplificadoras que desembarcavam dos Estados Unidos via contrabando. Era um novo chamariz para os bailes funk e o negócio das drogas. Um importante atrativo para as antigas bocas-de-fumo.

Com a vinda da nova tecnologia eletrônica destinada aos bailes também chega um moderníssimo arsenal: fuzis AR-15, metralhadoras, bazucas e até granadas, e vasta munição. Nessa mesma época, no final dos anos 70, também aconteceria o dumping da cocaína patrocinado pelo cartel de Medellín. No Brasil, o pó passava a ser vendido a preços inferiores aos da maconha. Com os lucros do negócio avançando rapidamente, também cresceu a competição entre as quadrilhas. Estava deflagrada a guerra entre as bocas-de-fumo e os comandos. Só no Rio, na última década o conflito já produziu cerca de 50 mil homicídios.

Seria através dos bailes, divulgados por rádios FM e canais de TV em busca de fácil audiência, que mais e mais jovens encontrariam as bocas-de-fumo. Em tais festas, a venda da cocaína representaria um faturamento de R$ 40 mil nos finais de semana. É o dinheiro que financia os sistemas de som que chegam a cobrar de R$ 3 mil a R$ 5 mil por baile. Alguns deles têm nomes significativos. Um dos mais populares é o Bagulhão (grande maconha). Atualmente funcionam nas 700 favelas cariocas umas 200 bocas-de-fumo que realizam festas funk. Ao lado dos clubes e do Canecão são cerca de 1,5 mil bailes, só no Rio. Com isso, o funk poderia assegurar uma receita total em torno de R$ 30 milhões mensais só para os sistemas de som, que não inclui a venda de discos ou os lucros milionários das gravadoras.

O Bagulhão chegou a ganhar seis discos de ouro e dois de platina, o que significa mais de 1 milhão de CDs vendidos. Outros R$ 60 milhões poderiam ser faturados com a venda de drogas durante os bailes, o verdadeiro chamariz do negócio. É o que calcula a Delegacia de Repressão a Entorpecentes do Rio.

Boa parte do recrutamento de jovens para a guerra das drogas se processa durante os bailes funk. Neles nasceram as galeras, espécie de tropa de choque integrada por soldados, olheiros, gerentes, etc., bem remunerados pelos traficantes. O funk também iria permitir que os DJs – animadores dos bailes – encontrassem na rivalidade entre as galeras um poderoso instrumento para tornar a dança ainda mais violenta e delirante.

Quanto mais droga melhor o funk, insinuam os DJs. E a matéria-prima de que os traficantes necessitam para atrair novos recrutas e prepará-los para a guerra. Os jovens são chamados a lutar furiosamente entre si, dividindo-se a quadra em territórios inimigos. Dos bailes, as galeras rivais saltam para a via pública. Invadem bairros e praias. Chegam a aterrorizar Copacabana com violentíssimos arrastões ou protagonizar boa parte das chacinas que acontecem na periferia de São Paulo.

A ousadia dos DJs, geralmente proprietários dos sistemas de som, não encontra limites. As meninas são convocadas a entrar na onda do strip-tease. No início, o barato é o topless. Protegidas por seguranças, elas sobem nuas ao palco. Uma nova atração para o funk, e um completo vale-tudo sexual. Muitas delas, com 13 ou 14 anos de idade, também se tornam amantes dos mais brutais donos dos morros. Como juiz de menores não sobe ao morro, metade da assistência funk é de crianças e adolescentes. Boa parte deles compõem as quadrilhas. São os "de menor", que portam pistolas ou carregam metralhadoras a serviço do tráfico de drogas e com o bill de indenidade do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Sem censura

Sistemas de som que difundem o funk, como o Furacão 2000, chegam a receber uma parte substancial dos lucros do negócio das drogas. É com esse dinheiro que passam a controlar programas domingueiros em determinadas redes nacionais de televisão. Rômulo Costa, proprietário do Furacão, foi preso pela primeira vez em 1999. Processado pelo 38º Distrito Policial do Rio e com prisão decretada, ficou foragido algum tempo. Localizado em Búzios, por ser primário obteve habeas corpus depois de quase um mês de cadeia. Inaugurou em seguida um programa de duas horas na televisão. Como não há censura para a TV, essa mídia é atualmente o instrumento de difusão do funk-bandido, e conseqüentemente do crime e das drogas. Aliás, foi a glorificação do bandido homicida, a apologia das drogas e o aviltamento da mulher que levaram o "Jornal do Brasil" a denunciar em editorial o verdadeiro caráter do funk: "Um festival de violência que espalha mais terror que alegria, uma dança macabra".

E, para cúmulo dos cúmulos, outro canal exibiu várias vezes um clipe do Facção Central, em que aparece um grupo de assaltantes estuprando e matando uma mulher na frente do marido. A letra do funk, mostrado em horário nobre, era bastante explícita: "Vou furtar seus bens/ e ficar bem louco (com o pó)/ se eu quero roupa e comida, alguém tem que sangrar/ vou enquadrar uma burguesa/ e atirar para matar..."

Para alguns sociólogos marxistas o funk tem certo sentido de luta pela libertação dos jovens mais pobres. Karl Marx é invocado para defender a idéia de que o funk tornaria o adolescente da periferia consciente de sua existência individual e social. Tal retórica é o pretexto para que determinados setores justifiquem a difusão de funks como um do letrista MV Bill, cuja letra diz, em sua parte publicável: "Eu tenho uma 9 e uma HK/ Com ódio na veia pronto para atirar/ Na vida que eu levo não posso brincar/ Eu carrego uma 9 e uma HK/ tem mais um pente lotado no meu bolso / só roupa à pampa que eu posso comprar/ tem um monte de cachorra (garota) querendo me dar/ a moda aqui é ser mulher de bandido..." Por tudo isso o funk parece mesmo uma dança macabra.

Fonte: www.funk-brasil.blogspot.com.br

 

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