O Preço do Amanhã não é só um filme, é uma aula!

O Preço do Amanhã não é só um filme, é uma aula!

Filme de ficção protagonizado por Justin Timberlake explora com inteligência e criatividade o contraste entre as classes sociais e a opressão do capitalismo corporativista, traçando com eficiência, um paralelo entre o cenário distópico da obra e a nossa realidade atual. 

 

Se sua vida é daquelas bem corridas, cheia de preocupações com relação a despesas e dívidas, repleta de dúvidas de como será seu próximo ano e indo dormir pensando em contas e boletos, muito provavelmente você não veria tanta diferença se já vivesse no cenário não muito futurístico do filme “O Preço do Amanhã” de Andrew Niccol. Mas não pense que você poderia pelo menos escolher onde viver. Com a vida “corrida” que você tem, sua residência seria no “gueto”, uma cidade bem precária e bem abaixo dos padrões de vida exigidos para uma qualidade de vida digna. Um lugar sujo onde impera a violência, a criminalidade e a indiferença. Você talvez seria vizinho de Will Salas (Justin Timberlake) que todo dia ao acordar, se certifica se ainda tem tempo o suficiente para mais um dia. Sim. Tempo. A moeda vigente neste novo mundo, que além de ditar seu poder de compra, define o quanto você ainda poderá viver. É assustador e ao mesmo tempo, realista. Neste cenário, tempo é literalmente “dinheiro”, e se você não o tiver, ou não lutar para consegui-lo todos os dias, sua vida estará absolutamente minada. O tempo que você tem é exposto no seu antebraço em forma de relógio em modelo de contagem regressiva. Há nele caracteres para anos, séculos e até milênios, permitindo a quem conseguir preencher todas as numerações, uma vida eterna e com direito a absolutamente TUDO, pois possuindo muito tempo, é possível consumir todo tipo de riqueza e privilégio. O relógio se inicia assim que a pessoa completa 25 anos, adicionando um ano a mais de vida e depois disso, a pessoa deve conquistar mais tempo para viver mais de forma ilimitada.

O relógio também pausa o envelhecimento, permitindo às pessoas poderem chegar aos 100 anos com a mesma aparência dos 25. Ou seja, não há limites para viver. Porém, no gueto, uma zona pobre onde vive Will Salas, com sua mãe, as coisas não são tão fáceis. O tempo para essa população é bem escasso e é preciso trabalhar dia após dia para conseguir mais dois ou três dias de vida, fora que o tempo também é usado para pagamento de coisas básicas, como alimentação, transporte público e aluguel. O que dificulta é que o custo de todos esses recursos tende sempre a aumentar, fazendo as pessoas se desesperarem ainda mais, buscando o crime para sobreviver, roubando o tempo dos mais fracos e vulneráveis, tornando o cenário uma selva darwiniana.

 
 
 

Will vive com sua mãe, na aparência de 25 anos, mas também com as horas contadas. Ao ter de voltar do trabalho, é barrada pelo motorista do ônibus dizendo a ela que a passagem dobrou de uma hora para duas horas, o que podemos chamar de “reais”. E para o desespero da moça, se viu obrigada a correr afim de alcançar seu filho para que este pudesse doar um pouco de tempo, mas a tentativa foi em vão. Quando o relógio zera, a pessoa morre imediatamente sem nenhuma chance de retorno e Will perde sua mãe.

Ao conhecer um milionário que estava em meio ao gueto expondo sua enorme fortuna de tempo, Will o salva dos criminosos que ele atraíra e o leva a um lugar seguro e é neste trecho que de fato a provocação filosófica começa através do diálogo.

O homem rico de tempo de 105 anos afirma não ter encontrado sentido em viver tanto e que também existe um sentido na morte:

- Chega um dia que já deu. Sua mente se esgota mesmo que o corpo não. Nós queremos morrer. Nós precisamos morrer.

- Seu problema é estar vivo há muito tempo? Rebate Will. – Já conheceu alguém que morreu? 

E o homem privilegiado solta a grande pérola do filme:

- Pra poucos serem imortais, muitos tem que morrer. Nem todos podem viver pra sempre pois não teríamos mais espaço. Porque acha que há zonas de tempo? Porque acha que taxas e preços sobem no mesmo dia no gueto? O custo de vida continua subindo para que as pessoas continuem morrendo.

De que outro jeito poderiam haver pessoas com um milhão de anos sem as pessoas vivendo dia após dia? Mas a verdade é que tem do que o suficiente. Ninguém precisa morrer antes do seu tempo. Se você tivesse tanto tempo como eu, o que faria com ele?

- Pararia de olhar para ele. Responde Salas. Se eu tivesse todo esse tempo, não desperdiçaria.

 
 

A mensagem e referência do filme é muito clara. Para que poucos vivam intensamente e desfrutem ao máximo das riquezas, da saúde e dos privilégios do mundo, existe um sistema que obriga as massas, a grande maioria, a viver na pobreza, pagando cada vez mais caro por recursos básicos para poder sobreviver mais um dia. Enquanto poucos tem todo o tempo do mundo, muitos já estão com seus dias limitados. E se olharmos para nossa realidade, o tempo de vida é sim ditado pelo dinheiro. Só o dinheiro permite de fato acesso a recursos, tratamentos e medicamentos para um estilo de vida mais saudável que resulte na longevidade e até em uma juventude mais prolongada. Por outro lado, a pobreza, a miséria e a correria tendem a causar um envelhecimento precoce e a situação precária resulta em doenças diversas, reduzindo o tempo de vida. Neste cenário, vemos claramente um contraste social de extrema desigualdade, no qual o distanciamento entre ricos e pobres é cada vez mais nítido.

Os ricos tem todo o tempo do mundo. Os pobres mal sabem se estarão vivos amanhã. Este cenário também é exposto no filme quando a vida de Will muda completamente. O homem rico, visto que já viveu mais que o suficiente, decide doar todo o seu tempo a Will, morrendo poucos minutos depois. Will agora se vê com mais de um século de vida e a primeira coisa que faz é doar a seu amigo mais próximo dez anos. Depois disso, Will inicia uma jornada através das zonas de tempo, tendo de depositar uma quantia de tempo de vida cada vez maior para atravessar cada uma delas, tornando impossível a travessia de qualquer morador do gueto, que tem tempo escasso. Seu destino final é a zona da elite, dos acionistas, dos executivos, que tem tempo em abundância e vivem sem preocupações. Aqui, outra crítica social é feita. A da segregação socioespacial. Afinal, não é sempre que um morador de periferia tem recursos para transitar e usufruir dos estravagantes centros urbanos. Lá ele tem contato pela primeira vez com ricos e poderosos que possuem um estilo de vida muito confortável, fazendo da vida um eterno passeio, repleto de festas, abundância e muito luxo.

É neste cenário que Will conhece Sylvia Weis (Amanda Seyfried), filha de um magnata acionista e herdeira de todo o sistema corporativo monopolista que controla o tempo. Sylvia, apesar de todo o tempo que possui, vê sua vida monótona e cheia de mesmice. Em um diálogo com Sallas, ela revela que tem certa inveja das pessoas do gueto. Will ao rebater sua afirmação, recebe uma resposta certeira de Sylvia: “os pobres morrem e os ricos não vivem”.

- Podemos viver para sempre se não fizermos nenhuma tolice. Responde Sylvia.

Ou seja, uma vida sem riscos é uma vida sem sentido.

E diante disso, Will apresenta a Sylvia uma nova perspectiva de vida. Viver em meio a riscos.

Quando Will está logo se familiarizando com o ambiente, surge diante dele o Guardião do Tempo, que conseguiu localizá-lo através de um monitor de leitura facial.

O guardião do tempo é a personificação do Estado que tem como função, preservar a ordem social imposta pela lei, independente se é justa ou não. Aqui, o Guardião do Tempo mantém contato frequente com os magnatas que detém todo o tempo para si, denunciando neste cenário o acordo que corporativistas e governantes possuem para manter as massas submissas e o sistema de opressão sempre vigentes.

 
 

Com o seu tempo confiscado e quase zerado, Will precisa fugir e usa Sylvia como refém para escapar da provável prisão. A partir daí, Will e Sylvia começam a desenvolver um vínculo de cumplicidade e afetividade, e Sylvia, a partir daí, começa a enxergar o sistema perverso do qual faz parte e que mais tarde herdaria de seu pai. Admitindo ter fechado os olhos a todo o sofrimento da maioria e às inúmeras mortes, um comportamento típico de sua classe social, a herdeira abre os olhos para a realidade cruel que sempre ignorou e decide ajudar Will em sua missão de quebrar o sistema, trazendo liberdade para todos.

A partir daqui, Will e Sylvia se tornam “foras da lei” dispostos a assaltar bancos de tempo e assim, distribuindo toda essa preciosidade chamada “vida” aos pobres do gueto, dando a eles um tempo maior do que haviam desejado ter, ainda sendo pouco.

Com o sistema sendo desafiado ao presenciar tanta gente gozando de mais tempo do que está habituado, o custo de vida sobe astronomicamente e os impostos ainda mais, no objetivo de manter as massas sob controle, limitando seu poder de compra, inclusão e acessibilidade.

Aqui, vemos bem como o mercado corporativo funciona. E podemos inclusive fazer uma analogia com as crises mundiais. A cada crise mundial, os bens de consumo tornam-se mais e mais caros, os alimentos sobem e os impostos ficam ainda mais abusivos. As crises muitas vezes são criadas para frear o consumo das classes menos favorecidas, que ao verem sua renda subindo, compram e consomem mais. A elite enxerga que se o consumo for muito intenso, poderá haver uma quebra da hierarquia que nivela ricos e pobres e este percurso contribui para uma igualdade social que fariam ricos ficarem menos ricos e pobres ficarem menos pobres. A solução são as crises financeiras, que travam o livre comércio de bens e sobem os preços, desvalorizando a moeda e beneficiando somente quem tem ações em bolsas e mercados financeiros. Não é segredo nenhum que após a crise de 2008, o distanciamento entre ricos e pobres tenha aumentado tanto e será assim após esta atual crise também.

Will enxerga que não basta possuir o tempo, é preciso possuir o sistema que controla o tempo. E assim derrubá-lo. Somente um milhão de anos poderia colapsar o sistema, pois o poder de compra ilimitado às massas minaria os bens de consumo e acessibilidade, classe social e desigualdade seriam apenas teorias ultrapassadas. O sonho dourado de todo marxista.

 
 

A crítica ao sistema capitalista do filme é certeira, mas a provocação vai muito mais além. A obra faz uma dura crítica ao Estado e suas medidas totalitárias. Dentre as políticas de opressão mais notadas, estão a de “controle populacional”, “retenção de recursos públicos”, que no filme podemos interpretar como “desvio de dinheiro público para os cofres de políticos e empresários” e “descaso para com os setores mais básicos”, que se apresentam no filme.

Assim como nossos impostos, no filme, é o tempo de nossas vidas que é roubado, desviado e bloqueado pelos demagogos. Imaginem só se o governo algum dia descobrisse uma forma de lhe cobrar o ar que você respira, assim como já cobra do alimento que te sustenta. Imagine se no futuro houver uma forma de confiscar e taxar em impostos o seu tempo de vida. Indiretamente isso já está acontecendo.  

O paralelo feito com nossa realidade atual é de uma genialidade ímpar e talvez não estejamos tão longe desta distopia. É claro que na ficção, os mocinhos são bem sucedidos no final, mas a nossa realidade já nos mostra o contrário, todos os dias.   

 

 

 

Assista: O Preço do Amanhã

Ano: 2011

Direção: Andrew Niccol

Estreia: 04.11.2011

Duração: 101 minutos

Estúdio: Regency Enterprises; New Regency; Strike Entertainment

Distribuição: 20th Century Fox

 

Redação: Ramon Ribeiro 

Bem Estar Ouro Fino 

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