Gênio Indomável: Um Filme com Múltiplas Lições de Vida

Gênio Indomável: Um Filme com Múltiplas Lições de Vida
Gênio Indomável é um filme de 1997 dirigido por Gus Van Sant e estrelado por Matt Damon, Ben Affleck e Robin Williams. Os três foram premiados ao Oscar por sua atuação. Robin Williams venceu o Oscar de melhor ator coadjuvante e Ben Affleck e Matt Damon foram premiados com o Oscar de Melhor Roteiro Original.
 
A obra conta a história de Will Hunting, um jovem rapaz órfão superdotado que possui um talento nato para a matemática, sendo capaz de resolver equações e problemas complexos sem nenhuma dificuldade cognitiva. Will é um gênio, mas também é um jovem rebelde, briguento e desordeiro, que se mete em confusão com seus amigos e acaba sendo motivo de infortúnio para aqueles que estão a sua volta. Este comportamento nada civilizado de Will é o resultado de diversos traumas de infância vividos em ambiente familiar e que sem um apoio para superá-los, acaba por descontar na sociedade as suas dores e cicatrizes.
Apesar de Will ser um jovem com um histórico turbulento, ele sabe se virar e se cuidar, arranjando trabalhos e serviços simples que o ajudam a se sustentar e para sua sorte, ele conta com amigos fieis que querem o seu bem, apesar de acompanha-lo em suas loucuras.
Mesmo com toda a sua vida agitada, Will é notavelmente um rapaz inteligente, que absorve diversos livros e que possui um alto nível de argumentação e senso crítico para rebater universitários sem nunca ter frequentado um curso superior.
A vida de Will começa a mudar quando ao trabalhar em uma das mais conceituadas universidades de química dos EUA como faxineiro, decide resolver uma complexa equação matemática deixada no corredor do prédio pelo professor Gerald Lambeau para seus alunos como um desafio. Uma equação extremamente complexa e avançada. Mesmo Will tendo resolvido a equação, ele acaba pondo tudo a perder ao se envolver em uma briga violenta com antigos rivais de escola e isso acaba lhe resultando em detenção.
Quando o professor Lambeau finalmente descobre que fora Will o gênio que resolveu sua equação, ele o procura e lhe oferece a liberdade condicional em troca de que faria aulas de matemática para aprimorar seu talento e terapia para se reintegrar na sociedade. A partir daí, podemos através da trajetória de Will Hunting, tirar múltiplas lições de vida e ainda traçar um paralelo de sua história com a história de muitos jovens cheios de talentos que não sabem o que querem, nem que caminho seguir na vida.
Podemos através da vida de Will, tirar também lições valiosas sobre amizade, relacionamentos, amor e propósito de vida.
Todas estas lições são aprendidas por Will através das sessões de terapia com o psicólogo Sean Maguire. Ainda que Will apresentasse um comportamento desordeiro, sarcástico e ofensivo, o qual diversos psicólogos não conseguiram lidar, foi Sean que realmente se dispôs a desafiar o garoto, lhe impondo limites e respeito e mostrando-se disposto a ouvi-lo e a lhe ajudar em sua caminhada de autoconhecimento, moldando assim um caminho para sua vida.
 

As Lições que aprendemos com o Filme:

 
O Sentido da Vida
Will não respeita muito as dores das pessoas, quanto menos o trabalho delas. Na primeira sessão com Sean, Will interpreta com maestria o quadro pintado de Sean que ele deixou exposto em seu consultório, um barco com um navegante a bordo à deriva. A pintura era uma representação da dor insuportável que teve ao perder sua esposa para o câncer. E Will, ao descrever cada detalhe da obra, acaba por expor as fragilidades de Sean.
 
Quando Will se levanta para olhar o quadro pintado por Shaun, começa a fazer uma análise da obra. E diz que Vicent Van Gogh o influenciou:
Will: Poderia ser você.
Shaun: Como assim?
Will: Você está no meio de uma enorme tempestade… o céu desabando, ondas quebrando no seu barco, os remos se partindo. Você mija nas calças de medo, procura o porto, faz tudo para escapar desta aflição e aí se torna psicólogo.
Shaun: Acertou. Agora venha, deixe-me fazer meu trabalho.
Will: Ou se casou com a mulher errada.
Shaun: Melhor ter cuidado com o que diz. Já chega, amigo.
Will: Foi isso, não foi? Casou com a mulher errada? O que houve? Ela o deixou? Trepou com outro cara?
Shaun lentamente perde o controle e num segundo, imobiliza Will pelo pescoço e lhe diz: Se desrespeitar minha mulher outra vez, juro que acabo com você. Entendeu bem?
Will assustado sussurra: o tempo acabou.
Está bem claro aqui que Will o magoou por desrespeitar sua mulher, já falecida pelo câncer. Mas Sean não se deixa contaminar pela insensatez do garoto e na segunda sessão, o leva ao parque para lhe dizer algumas verdades sobre ele.
 
Shaun: Pensei no que disse outro dia sobre meu quadro. Passei metade da noite acordado. Até que me toquei de algo… e caí num sono profundo. E não pensei mais nisso. Sabe o que foi?
Will: Não.
Shaun: Você é só um garoto. Não sabe nada do que está falando.
Will: Obrigado.
Shaun: Tudo bem.
Shaun: Já saiu de Boston?
Will: Não.
Shaun: Se te perguntar sobre arte, me dirá tudo escrito sobre o tema. Michelangelo… sabe muito sobre ele: Sua obra, aspirações políticas… ele e o papa, orientação sexual, tudo. Mas não pode falar do cheiro da Capela Sistina. Nunca esteve lá, nem olhou aquele teto lindo. Nunca o viu. Se perguntar sobre mulheres, me dará uma lista das favoritas. Já deve ter transado algumas vezes, mas não sabe o que é acordar ao lado de uma mulher e se sentir realmente feliz. Você é um durão. Se eu te perguntar sobre guerra, vai me citar Shakespeare… “Outra vez ao mar, amigos…” Mas não conhece a guerra. Nunca teve a cabeça de seu melhor amigo no colo… e viu seu último suspiro, pedindo ajuda. Se perguntar sobre o amor, citará um soneto… mas nunca olhou para uma mulher e se sentiu totalmente vulnerável. Alguém que o entendesse só com um olhar como se Deus tivesse posto um anjo na Terra só pra você. E sem saber como ser o anjo dela, como amá-la e apoiá-la pra sempre, estando ao lado dela suportando tudo, até o câncer. Não sabe o que é dormir sentado num hospital por dois meses porque só o horário de visitas não é suficiente. Não sabe nada de perda. Porque ela só ocorre quando você ama alguém mais do que a si próprio. Duvido que já tenha amado alguém assim. Olho pra você, e não vejo um homem inteligente e confiante. Só um garoto convencido e assustado. Mas você é um gênio Will, isso é inegável. Ninguém entenderia sua complexidade. Mas você acha que me conhece por um quadro e decide dissecar minha vida. Você é órfão, não é? Acha que eu sei o quanto e como sofreu, como se sente, quem você é… só porque li “Oliver Twist”? Você se resume a isso? Pessoalmente, estou me lixando pra isso, porque tudo que me diz eu poderia ler em livros. A menos que me conte sobre você, quem você realmente é. Isso me fascinaria. Isso sim. Mas não quer fazer isso, não é chefe? Tem pavor do que poderia dizer. Acabou nosso tempo.
É fato que Sean tocou o garoto com estas palavras e o submeteu a uma profunda reflexão sobre o sentido da vida. A partir daí, as sessões passariam a ser diferentes. Pois Will agora estava empenhado, ainda que não soubesse disso ainda, em responder a seguinte pergunta: “Quem sou eu?”

Amor
Will, ao expor com perspicácia a arrogância intelectual de um universitário de História que tentava humilhar seu amigo Chuckie Sullivan no bar, acaba impressionando e chamando a atenção de Skylar, uma jovem estudante de medicina que lhe dá seu telefone e que logo iniciam um relacionamento casual que vai com o tempo, se tornando mais sério. Mas Will não leva o relacionamento adiante, deixando de liga-la por algum tempo. Esta insegurança provém do fato de ele finalmente ter conhecido uma garota com o qual realmente pudesse ser ele mesmo, sem nenhum medo, embora tivesse medo do abandono, já vivenciado.
 
Esta insegurança com relação ao amor é relatada a Shaun em uma nova sessão de terapia.
Will: Já fiz sexo, sabe.
Shaun: É mesmo? Que bom.
Will: Muitas vezes.
Shaun: Muitas vezes?
Will: Tive um encontro outro dia.
Shaun: Como foi?
Will: Bom.
Shaun: Vai vê-la de novo?
Will: Não sei.
Shaun: Por que não?
Will: Não liguei mais pra ela.
Shaun: Que amador você é.
Will: Relaxa! Sei o que faço. Não se preocupe. Sei o que estou fazendo. Mas ela é linda, inteligente, divertida e diferente das outras.
Shaun: Então ligue pra ela, Romeu.
Will: Pra quê? Pra descobrir que ela não é tão inteligente, que é chata? Ela é perfeita agora. Eu não estragaria isso.
Shaun: Talvez esteja perfeito pra você e não queira estragar isso. Isso é super filosofia. Assim, poderia viver a vida toda sem conhecer ninguém de verdade. Minha mulher peidava ao ficar nervosa. Idiossincrasias, peidava dormindo. Desculpe por falar nisso. Uma noite, até acordou o cachorro. Ela acordou e disse: “Foi você?” E eu: “Foi”. Não pude contar.
Will: Ela mesma se acordou?
Shaun: Deus! Faz dois anos que ela morreu, e é disso que me lembro. Coisas maravilhosas e bobas como essa. É disso que sinto mais falta. As pequenas idiossincrasias que só eu conhecia. Era o que a fazia minha mulher. Ela sabia tudo de mim, inclusive meus defeitos. Chamam isso de imperfeições, mas não são. São as coisas boas. Nós escolhemos quem deixamos entrar em nossa vida.
Você não é perfeito, amigo. E vou te poupar o suspense. Essa sua garota também não é. Mas quem disse que vocês precisam ser perfeitos? A questão é se são perfeitos um pro outro. Essa é a graça da intimidade. Você pode saber de muita coisa, mas isso, só vai descobrir tentando, e não vai ser com um velho como eu, pois mesmo que eu soubesse, não diria a você.
Will: Você fala mais que todos os outros analistas.
Shaun: Eu ensino, mas não disse que sabia fazer.
Will: Pensa em casar de novo?
Shaun: Minha mulher morreu.
Will: Por isso, eu disse “de novo”.
Shaun: Ela morreu.
Will: É uma super filosofia. Assim, poderia viver a vida toda sem se relacionar com ninguém.
Shaun: Acabou o tempo.
Skylar era para Will a primeira garota que realmente despertara um sentimento profundo e isso lhe causava medo, por já ter sofrido a dor do abandono. Ainda assim, Skylar se apaixonara e prometia a Will o seu coração e todo o seu amor, mas Will hesitou em correspondê-la.
A questão é que o amor é desejado por todo ser humano, mas ele causa medo. Pois todos temos um mecanismo de defesa que nos impede de sofrer e em pessoas que sofreram intensamente o desamparo e o desamor, este bloqueio é muito mais forte, tornando mais difícil assumir uma relação.
E sim, é fato que em um relacionamento, sempre corremos o risco de sofrer e de passar por dores irreparáveis, como é o caso de Sean, que demonstrou no diálogo ainda não ter superado a morte de sua mulher. Ainda assim, ele é grato por tê-la conhecido, por ter vivido intensamente com ela e por ter ficado ao lado dela nos seus últimos minutos de vida. É o que demonstra o diálogo da quinta sessão.
Will: Li seu livro ontem.
Shaun: Então foi você.
Will: Ainda atende veteranos?
Shaun: Não.
Will: Por que não?
Shaun: Desde que minha mulher adoeceu.
Will: Já se perguntou como seria sua vida se não a tivesse conhecido?
Shaun: Se seria melhor sem ela?
Will: Não quis dizer isso.
Shaun: Tudo bem.
Shaun: É uma pergunta importante. As crises nos acordam para as coisas boas que não percebemos.
Will: Alguma vez se arrependeu?
Shaun: Pela dor que sinto agora? Me arrependo de muita coisa, mas de nenhum dia ao lado dela.
Will: Quando descobriu que era a mulher da sua vida?
Shaun: Em 21 de outubro de 1975.
Will: Nossa! Lembra do dia exato?
Shaun: Era o sexto jogo do campeonato, o maior da história dos Red Sox. Eu e meus amigos dormimos na fila para comprar entradas.
Will: E conseguiu?
Shaun: No dia, estávamos num bar… esperando a hora do jogo, e ela entrou. Um jogo incrível. No oitavo tempo, Carbo empata, 6 a 6. Foi a 12. No fim do 12°, era a vez de Carlton Fisk, Pudge. Ele se prepara com aquela pose engraçada. E rebate. “Uma bola alta por cima da lateral esquerda!” 35 mil pessoas de pé gritando para a bola. Fisk acena pra ela, como louco: “Sai, sai!” E ela acerta a trave! Ele vai à loucura… e 35 mil fãs invadem o gramado. – Ele dispara! – “Saiam da frente!”
Will: Nossa! E você invadiu o campo?
Shaun: Como poderia invadir? Eu nem estava lá.
Will: Como é?
Shaun: Eu estava no bar conhecendo minha futura esposa.
Will: Perdeu essa jogada por uma desconhecida?
Shaun: Ah! Mas você tinha que vê-la! Ela era incrível!
Will: E daí?
Shaun: Ela iluminava o lugar.
Will: Podia ser a Helena de Tróia! O sexto jogo?!
– Como seus amigos deixaram?
Shaun: Não tiveram escolha. Tiveram que deixar!
Will: O que você disse?
Shaun: Dei-lhes a entrada e disse… “Desculpem, mas tenho de ver uma garota”.
Will: Disse: “Tenho de ver uma garota”?
Will: E eles deixaram?
Shaun: Quando viram meus olhos, eles entenderam.
Will: Está me gozando?
Shaun: Não. Não estou. Por isso, não estamos falando de uma garota com quem me arrependo de não ter falado. Eu não me arrependo dos 18 anos casados com Nancy. Eu não me arrependo dos 6 anos em que fiquei com ela no hospital quando ela adoeceu. Eu não me arrependo de tudo o que abri mão quando ela piorou bastante. E não me arrependo de ter perdido aquele jogo.
Will: Mas teria sido legal ver o jogo.
Shaun: Não sabia o que Pudge faria.
 
Valores e Profissão
Will é um rapaz promissor com grande talento natural, passando a ser muito requisitado no mercado corporativo, o que lhe permite o privilégio de inúmeras escolhas e oportunidades. Mas nem mesmo todas as oportunidades do mundo conseguem definir o que ele realmente almeja para si mesmo em sua vida. Esta decisão precisa ser feita com base em seus valores, crenças e senso de ética e moral. Afinal, são questões assim que definem nosso caminho rumo à nossa profissão, ofício e carreira.
Mas o professor Gerry Lambeau não está nem um pouco interessado por questões filosóficas e humanas e deseja lançar Will no mercado o mais rápido possível, transformando-o num ícone histórico da ciência como Albert Einstein e Isaac Newton.
Este desejo se torna visível quando Lambeau apela a Sean para que force o garoto a seguir um caminho que o professor acredita ser o único certo para ele, mas o terapeuta indaga-o com sabedoria.
 
Gerry: Esse garoto tem um dom. Falta a ele direção, mas isso podemos lhe dar.
Sean: Hey, Gerry, nos anos 60, um jovem se formou pela Universidade de Michigan. Fez um trabalho brilhante em matemática, especificamente em funções harmônicas. Foi professor em Berkeley, tinha um grande potencial, aí ele foi para Montana e detonou seus adversários.
Gerry: Quem era?
Sean: Ted Kasczynski.
G: Nunca ouvi falar.
Sean: Timmy! (se dirige ao dono do bar). Quem é Ted Kasczynski?
Timmy: O Unabomber! (obs: matemático que ficou famoso por matar e ferir pessoas em atentados a bomba devido ao seu ativismo anticivilização).
Gerry: É a isso que me refiro. Temos que dar direção ao garoto. Ele pode contribuir com o mundo e nós podemos ajudá-lo nisso.
Sean: Direção é uma coisa, manipulação é outra. Você tem que deixá-lo…
Gerry: Sean, eu não passo as noites mexendo no meu bigode e tramando um plano para arruinar a vida dele. Com 18 anos, eu já fazia matemática avançada e ainda levei 20 anos para fazer ago digno de ganhar a Medalha Field.
Sean: Talvez ele não queira o que você quer. Existem mais coisas na vida além de uma porcaria de Medalha Field.
Gerry: Isso é muito importante, Sean. E está acima da nossa rivalidade pessoal.
Sean: Espere, Gerry. Vamos falar do garoto. Por que não damos tempo a ele para saber o que ele quer?
Gerry: Esta é uma ótima teoria. Funcionou com você, não funcionou?
Sean: É, funcionou mesmo, seu babaca arrogante!
Gerry: Desculpe, foi bobagem ter vindo aqui. Eu vim por cortesia. Queria te deixar a par.
Sean: Ah, me deixar a par!
Gerry: O menino está em uma entrevista na McNeil.
Como foi dito, na vida temos de fazer escolhas e decisões que podem nos trazer muito sucesso ou muitas perdas, mas que também podem trazer uma vida vazia e sem sentido ou uma vida repleta de vivências, experiências e valores. É possível notar no diálogo que existe uma rivalidade entre Sean e Gerry, simplesmente pelo fato de ambos terem feito escolhas diferentes em suas vidas.
 
 
Gerry Lambeau é um grande professor conceituada em matemática que já ganhou diversos prêmios e medalhas na área. Sean é um psicólogo e professor que perdeu muitas oportunidades em sua carreira para ficar ao lado de sua esposa enquanto ela estava doente. Apesar da diferença de mérito entre os dois, ambos fizeram renúncias em suas vidas em nome daquilo que consideravam mais importante. Sean renunciou múltiplas chances de crescer e de se conceituar na carreira, e Gerry renunciou momentos importantes com quem ama e até relacionamentos para se aprimorar em seus estudos e garantir sucesso profissional.
Apesar de Gerry pensar que Sean o inveja, o psicólogo na verdade não se arrepende do que renunciou. Um fato expresso no diálogo com Will mostrado anteriormente. E Gerry por sua vez, se apega tanto a títulos e prestígio acadêmico pela falta de ter vivido aquilo que muitas vezes seria algo valioso em sua vida.
Ao indagar que seria melhor dar um tempo para que o garoto pudesse decidir por si mesmo, Gerry rebate com ironia que aquela teoria deu certo com ele, sugerindo que Sean é um fracassado. Sean ao notar a ofensa, o responde com uma direta: “funcionou mesmo, seu babaca arrogante”. É claro que a conversa não terminou bem.
Restava ao Gênio Indomável decidir qual caminho queria seguir e o que priorizar. Será o caminho de seu terapeuta ou o de seu professor?
Will, na entrevista para a NSA, uma importante companhia governamental, já transparece que apesar de toda a sua genialidade e potencial para atuar no mercado, ainda assim faz uma escolha sensata por valores morais compartilhados por Sean.
 
Will: Por que o senhor acha que eu deveria trabalhar para a agência nacional de seguros?
Entrevistador: Por que não deveria?
Will: Por que não deveria? O que eu posso dizer...? É uma pergunta difícil, mas eu vou tentar. O motivo pelo qual eu não quero trabalhar pra vocês é que eu sei que vou encontrar um código sobre a minha mesa que eu vou ter que decifrar. Talvez nem devesse olhar pra ele, talvez em devesse decifrar e ficar contente por ter feito bem o meu trabalho. Talvez esse código se refira a uma pequena cidade no norte da África, no Oriente Médio e assim que vocês tiverem essa localização vão bombardear o lugar com suas armas. 1500 pessoas que eu nunca vi na vida e com quem nunca tive problemas são mortas. Então os políticos dizem: “mandem os fuzileiros para proteger a área” porque eles não dão a mínima; não vão estar lá levando tiros, nem participando, pois essa não é a deles. A deles é de atuar como um deus nacional. Mas vai haver algum jovem do sul que vai acabar levando uns estilhaços na bunda; ele volta pro seu país e descobre que a fábrica em que ele trabalhava foi explodida pelo país contra o qual estava lutando. E o cara que meteu umas balas na bunda dele, tomou o emprego dele porque trabalha por 15 centavos o dia sem pausa para ir ao banheiro. Aí ele conclui que o único motivo pra ele ter ido lutar foi pra que pudéssemos instalar ali um governo que nos permitisse vender petróleo por um preço mais barato, e é claro, as empresas de petróleo iam aproveitar para aumentar os seus lucros vendendo combustíveis pra nós aumentando suas marchas, mas isso não iria ajudar em nada meu amigo que pagaria mais caro pela gasolina. Esse rapaz passaria a ter muito tempo livre e talvez virasse um alcoólatra começando com martini seco. Enquanto isso o navio-tanque vai estar navegando entre os icebergs. Não demora muito ele vai de encontro a um deles e derrama o petróleo eliminando a vida marinha no Atlântico Norte, e agora meu amigo está desempregado, não pode dirigir, então vai a pé procurar emprego e vai mancando porque as balas que ele levou na bunda o fizeram ter hemorroidas crônicas e continua mancando. E toda vez que tenta um novo emprego é recusado por que dizem que toda a região do Atlântico Norte está passando por uma crise. Então quer saber o que eu acho? Eu vou procurar uma coisa melhor. Porque eu acho que vocês não entendem porque eu não quero matar meu amigo. Tirar o emprego dele, dá-lo pro inimigo, elevar os preços do petróleo, matar mulheres e crianças, matar filhotes de foca e ainda achar que sou um deus nacional. Eu poderia ser eleito presidente.    
No fim das contas, não basta ter um trabalho promissor e enriquecedor. É preciso que seja um trabalho ético, que respeite a vida humana, animal e ambiental e que seja engrandecedor para si mesmo e a sociedade. E Will acaba aqui desvendando e externando seus valores humanos, colocando tais valores acima de seu sucesso pessoal e profissional. Ele defende a máxima de que todo trabalho é digno, louvável e que há honra em cada ofício realizado com eficiência e honestidade. Ao externar isso para seu psicólogo, Sean o indaga a respeito de que se ele não poderia ousar mais frente às oportunidades e privilégios que possui em si mesmo, pois por mais que todo trabalho seja digno, devemos também abraçar e usufruir das oportunidades e da inteligência que Deus nos dá. Não devemos enterrar nossos talentos.
 
Sean tenta despertar Will para estes ideais, buscando fazê-lo descobrir o que ele quer para si mesmo, dada todas as suas qualidades, e não pelo que os outros pensam ou esperam. E para isso, Sean busca desvendar algo ou alguém que inspire o garoto a ousar e a desafiar seus próprios limites.
Shaun: Você se sente sozinho?
Will: Como?
Shaun: Tem uma alma gêmea?
Will: Defina isso.
Shaun: Alguém que o desafie.
Will: Chuckie.
Shaun: Ele é sua família. Se deixaria atropelar por você.
Shaun: Falo de alguém que entenda a vida, que toque sua alma.
Will: Tenho…
Shaun: Quem?
Will: Tenho vários.
Shaun: Cite alguns.
Will: Shakespeare, Nietzsche, Frost, O’Connor, Kant, Pope, Locke…
Shaun: Bom, todos mortos.
Will: Não para mim.
Shaun: Não dialoga com eles. Não pode interagir com eles. Não sem um ressuscitador. É disso que estou falando. Nunca se relacionará se tiver medo do primeiro passo, pois sempre encara o futuro de modo negativo.
Will: Está do lado do professor?
Shaun: Não comece.
Will: Eu não queria o emprego.
Shaun: Dane-se o emprego. Você pode fazer o que quiser, não tem limitações. A questão é o que desperta seu interesse? O que você realmente quer? Pedreiros trabalham a vida toda para dar aos filhos a chance que você tem.
Will: Não pedi nada.
Shaun: De fato! Você nasceu com isso. Não se omita.
Will: Omitir? Algo errado em ser pedreiro?
Shaun: Nada.
Will: Nada. Estou construindo algo.
Shaun: Sim. Meu pai era pedreiro. Se matou pra me dar a educação que tenho.
Will: Claro! É uma profissão honrada. Qual é o problema em consertar carros? Eu estaria ajudando alguém.
Shaun: Sim. É honrado.
Will: Claro que é.
Shaun: Tem razão. É honrado viajar 40 minutos de trem para que os estudantes tenham o chão e as lixeiras limpos. Isso é trabalho. Isso é honrado.
Will: Isso mesmo.
Shaun: Tanto é honrado que foi por isso que pegou o emprego, pela honra. Mas só uma pergunta. Você podia ser servente em qualquer lugar. Por que decidiu trabalhar justamente na universidade de maior prestígio do mundo? Por que provar fórmulas que só uma ou duas pessoas poderiam e depois mentir, negando que as fez? Não vejo muita honra nisso.
A partir daí, Will tenta se esquivar da conversa e isso mina a paciência do terapeuta.
Shaun: Olhe pra mim. O que quer fazer?
E o silencia toma conta da sala por alguns segundos.
Shaun: Você e suas besteiras. Tem uma piada para tudo, aí eu faço uma pergunta simples e não consegue responder por que não sabe. Até mais, pastor.
 
Autoconhecimento
Não falta a Will oportunidades, pois ele nasceu privilegiado com um dom. Mas lhe falta o autoconhecimento para decidir que caminho seguir e isso lhe exige mergulhar para dentro de si mesmo, encarando seus monstros, traumas e dores. É uma jornada dolorosa que Will ainda não estava disposto a encarar.
 
Obviamente que o professor Lambeau não via em Will um ser humano com dores, traumas e fragilidades e sim, apenas um gênio que tinha de ser programado e lançado no mercado imediatamente como uma fonte de privilégios. Ao pressionar Sean para que ele forçasse o garoto, uma discussão relacionada a antigas rivalidades veio à tona e Will acaba flagrando os dois na discussão.
Sean se desculpa: - Há muita coisa antiga entre mim e ele. Não tem nada a ver com você.
Após Will e Sean compartilharem as experiências negativas que tiveram em comum, como o alcoolismo na família, Will passa a se abrir.
Will: É. Então como vai ser? Will tem distúrbio de vínculo? Medo do abandono? Por isso… …terminei com Skylar?
Sean: Eu não sabia.
Will: É. Terminei.
Shaun: Quer conversar sobre isso?
Will: Não.
E Sean, vendo que Will está fragilizado, consegue tocá-lo profundamente, conscientizando-o e aliviando-o de que toda a sua dor não é sua culpa.
Sean: Tudo isso aqui não é sua culpa.
Will: Eu sei.
Sean: Olhe pra mim, filho. A culpa não é sua.
 
Sendo esta simples frase pronunciada repetidamente, Will desaba e chora nos ombros de Sean, ao retirar de si mesmo a dor e a culpa que sempre carregou por tudo de ruim que lhe aconteceu em sua vida. Na minha humilde opinião, foi a cena mais linda do filme.
Amizade
 
Chuckie é o melhor amigo de Will. E é a pessoa que mais quer o seu bem.
Em uma conversa casual, Will diz de forma indireta que dispensou todas as oportunidades de emprego e estabilidade que estavam disponíveis a ele quando Chuckie perguntou sobre as entrevistas.
Chuckie: Como estão suas reuniões?
Will: Continuo participando delas.
Chuckie: Acha que elas vão te facilitar emprego?
Will: É! Vou poder ficar sentado numa sala pelos próximos 50 anos... (num tom de desdém).
Chuckie: É! Provavelmente com uma linda decoração.
Will: Ou uma droga de biblioteca...
Chuckie: É melhor que essa merda. Cai fora daqui.
Will: Um dia eu saio daqui. Eu não quero ficar aqui pro resto da minha vida. Eu quero ter vizinhos, viver com meus filhos, levar minha mulher pra passear, esse tipo de coisa.
Chuckie: Will, você é o meu melhor amigo. Não me interprete mal. Em 20 anos você ainda vai tá morando aqui. Vai olhar minha casa e ver a pintura descascando. Esse trabalho em construção vai acabar matando você.
Will: Que isso? Do que tá falando agora?
Chuckie: Olha! Você tem algo que não temos.
Will: Aff que que é? (desprezo) Porque de repente todo mundo quer que eu faça outra coisa?
Chuckie: Não! Não é nada disso! Você deve isso a mim! Amanhã eu vou acordar com 50 anos e vou tá fazendo essa merda. E tudo bem. Eu nunca serei um arquiteto. Você pode até achar que existe honra nisso aqui, mas isso é besteira. Eu faria qualquer coisa pra ter o que você tem. Assim como qualquer um aqui. Chega a ser um insulto ver você aqui todos esses anos. Tá perdendo seu tempo Will.
Will: Você não sabe nada.
Chuckie: Ah não sei? Tá bom. Eu te digo o que não sei. Todos os dias eu passo na sua casa pra pegar você. Nós ficamos juntos algum tempo e damos umas risadas. Você sabe qual é a melhor parte do meu dia? São aqueles poucos segundos em que eu paro o carro e vou até a sua porta. Porque eu acho que vou chegar lá, bater na porta e você não vai estar lá. Sem adeus ou até logo. Sem nada. Você se mandou. Eu posso não saber muito, mas isso eu sei.
Um conselho de amigo formidável, que realmente provou o quão Chuckie se importa com Will e o quanto deseja que ele seja feliz. Um amor genuíno em forma de amizade.
 
Will, a partir daí, descobre que é mais privilegiado do que nunca. Tem amigos verdadeiros, uma mulher que a ama e é guiado por um excelente profissional de saúde mental, que também se torna um amigo.
A última sessão com Sean é a mais difícil, pois é onde a terapia chega ao fim e é onde cada um deverá agora seguir o seu caminho, depois de tantas conversas, risos e discussões que acabaram formando uma amizade profunda que deixaria saudades.
Shaun: Qual escolheu?
Will: O da McNeil. Um dos que o professor arranjou. Ainda não contei a ele mas fui lá e falei com meu novo chefe. Pareceu um cara legal.
Shaun: É isso que quer?
Will: Acho que sim.
Shaun: Que bom. Parabéns.
Will: Obrigado.
Shaun: Acabou o tempo.
Will: Então é tudo? Encerramos?
Shaun: É tudo. Acabamos. É um homem livre.
Will: Só queria dizer que…
Shaun: De nada.
Will: Espero que a gente ainda se fale.
Shaun: Eu também. Vou viajar, mas checarei as mensagens na secretária eletrônica na faculdade. Tome. Ligue, e retorno em seguida. Decidi apostar outra vez e tentar novas cartas. Siga seu coração, e tudo ficará bem.
Will: Obrigado, Sean.
Shaun: Obrigado, Will.
Eles se abraçam.
Will: Isso é proibido na relação médico-paciente?
Shaun: Só se pegar na minha bunda.
Cuide-se.
Will: Você também.
Shaun: Boa sorte, filho.
 
Quando Will já havia optado por um emprego, ele no último momento, desiste para ir atrás de Skylar, por quem se apaixonou e que foi correspondido na mesma proporção.
 
Gênio Indomável é realmente uma obra magnífica de múltiplas lições de vida, como amizade, valores, profissão, amor, relacionamentos e um norte perfeito para estudantes de psicologia.
O garoto rebelde que se revela um gênio da matemática está perdido, sem saber que caminho tomar na vida, pois lhe falta autoconhecimento. Algo que ele consegue alcançar com a ajuda de bons amigos e um terapeuta profissional que honra a sua profissão.
Com certeza recomendamos. Para quem ainda não assistiu e também para quem já assistiu.

 

 
Ramon Ribeiro – Professor de Letras, Redator e Jornalista
Produtor de Conteúdo Bem Estar Ouro Fino

      

Assista a uma cena do filme

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Nosso site está localizado na cidade de Ouro Fino, no Sul de Minas Gerais, como a primeira empresa de publicidade globalizada culturalmente de nosso município, promovendo a qualidade da internet ourofinense e do Brasil. Aproveite sempre o que o mundo tem de melhor! 

Sempre ótimos dias para você e sua família!