A Viagem de Chihiro: crítica social, identidade, capitalismo e amadurecimento

A Viagem de Chihiro: crítica social, identidade, capitalismo e amadurecimento

Obra japonesa é repleta de simbolismos, e muitos deles refletem a sociedade atual. A animação é reconhecida como uma das mais renomadas de todos os tempos, levando o Oscar de 2003 no lugar de grandes produções americanas como "A Era do Gelo" da Blue Sky Studios, "Lilo e Stitch" da Walt Disney e "Spirit - O Corcel Indomável", maior aposta da DreamWorks na época.    

 
 

Confesso que tive de assistir mais de uma vez a esta criação fascinante de Hayao Miyazaki, conhecido como o mestre da animação japonesa. “A Viagem de Chihiro” é com toda certeza, uma obra incrivelmente rica em detalhes estéticos e em movimento, mas acima de tudo, é extremamente rica em filosofia, religião, misticismo, vida social e crescimento espiritual. Há também traços do filme que fazem alusão à puberdade e a sexualidade, mas falemos sobre isso em um parágrafo isolado. O que chama mesmo atenção neste filme, além da qualidade fantástica da animação, são seus enigmas e a bagagem de crítica social abordada na história. Não se pega tudo na primeira sessão, a menos que se seja engajado e bem próximo da cultura japonesa em sua complexidade e sua língua e que seja provido de uma visão de mundo mais oriental que ocidental, pois a obra deixa muita clara suas críticas ao Ocidente e seu mundo pós-moderno. Podemos analisar as propostas do filme analisando suas personagens e suas respectivas personalidades. Mas antes, vamos abordar o enredo inicial do filme de forma breve para que seja possível uma análise mais eficiente.

 
 

Comecemos pela protagonista Chihiro. É ela a primeira a aparecer. No início do filme, ela aparece como uma menina insegura, imatura, medrosa, e com uma visão muito limitada da realidade. Rebelando-se contra a decisão de seus pais de se mudarem para uma outra região do Japão, Chihiro apresenta um comportamento muito comum da pré-adolescência. Ela, ainda com uma personalidade típica de uma criança, faz birra, se agarra aos pais, denunciando sua vulnerabilidade e fragilidade emocional e a todo momento grita como uma garota mimada. Seus pais, por sua vez, não deixam de tratá-la como uma criança, mas também não deixam de ser negligentes com relação à sua segurança. Ao descobrirem através de um atalho para a casa nova uma caverna escura que leva a um extenso campo verde, os pais de Chihiro ficam entusiasmados, enquanto que ela, só pensa mesmo em voltar para o outro lado da caverna. E para a surpresa de Chihiro e do próprio espectador, seus pais encontram uma barraca farta de comida e de guloseimas, e sem questionar, começam a comer, confiantes de que o dinheiro resolverá tudo quando terminarem. Eis aí as primeiras simbologias do filme. A comida, muito presente na trama, representa o consumismo desenfreado da nossa sociedade atual, o que faz muito sentido, pois hoje não nos saciamos, nos empanturramos. E esta simbologia fica mesmo explícita quando Chihiro se depara com seus pais ainda comendo depois de bom tempo, transformados em porcos. Sim. Porcos capitalistas. Um termo muito utilizado pelos soviéticos em sua guerra contra a burguesia ocidental. Não ignorando também a alusão a George Orwell em sua “Revolução dos Bichos”, que retrata o quão porco pode se tornar um homem quando assume o poder de representatividade sobre os demais. Leia análise do livro aqui.

 
 

Chihiro se desespera e se sente perdida, até que conhece Haku, um garoto que vive neste mundo paralelo como subordinado direto de Yubaba, uma bruxa que chefia uma enorme casa de banho com inúmeros empregados. Haku esconde um segredo. Ele é na verdade um dragão sob o disfarce de um humano. Haku era originalmente o espírito do rio Kohaku e conhece Chihiro ainda muito pequena, visto que uma vez, ele a salvou de um afogamento. Quando o rio foi destruído e preenchido com apartamentos e prédios, ele já não tinha uma casa e se abrigou no mundo espiritual, onde ele se tornou aprendiz de Yubaba.

Yubaba, por sua vez, é a vilã desta história. Ela é uma bruxa com características bem excêntricas e é a chefe geral de uma enorme casa de banho, onde se recebe vários espíritos como clientes. Neste enorme balneário, os empregados são em grande parte animais e mulheres. E muitos seres que trabalham neste lugar possuem características femininas. Curioso? Bom. Existe uma teoria que envolve prostituição infantil neste filme, mas não há indícios de fontes confiáveis que comprovem estas ideias. Porém, se mesclarmos esta teoria à questão de identidade, torna-se no mínimo plausível. E um dos focos principais do filme é despertar uma reflexão profunda sobre identidade. 

 

Analisemos então a simbologia representada por Yubaba. Se nos atermos a seu ambiente, comportamento e caráter extremamente autoritário, vemos que ela representa a figura do capitalismo corporativista, que explora, paga pouco e que, principalmente, rouba sonhos e identidades de seus subordinados. Sim. Esta última analogia fica explícita quando Yubaba contrata Chihiro. Visando torná-la uma empregada submissa, que não questionasse suas funções como subordinada, Yubaba rouba de Chihiro seu bem mais precioso: sua identidade. E faz isso alterando seu nome para Sen. Todos os empregados têm seus nomes instituídos por Yubaba, assim como Lin, ajudante de Kamaji e também empregada da casa. Lin, parece ter algum indício de consciência ao afirmar que um dia gostaria de ir embora dali, mas não demonstra nenhuma resistência que corresponda a esse desejo. É difícil afirmar se ela é também humana. Sem seu nome, Chihiro passaria a se tornar parte de um sistema de massas, onde não existe indivíduo, nem pensamento próprio, nem subjetividade, nem autoconhecimento, mas apenas o sistema.

 
 
 

Esta perda de identidade é observada nos empregados da casa e em Kamaji, um velho senhor de seis braços que trabalha exaustivamente na caldeira da casa de banho sem questionar nada, pelo menos até a chegada de Chihiro. E fazendo uma breve observação: quantos já perderam sua identidade para se encaixar neste mundo extravagante que dita o consumismo como sinônimo de felicidade; onde todos já não são mais indivíduos autores de sua própria história, mas ferramentas e objetos de um sistema que dita pensamentos, valores e rotinas, vivendo todos alienadamente como se não houvesse amanhã ou um sentido a mais na vida, sem identidade, como ratos. Uma referência a Steven Cutts. É perceptível que Chihiro a partir daí, passasse gradativamente a se esquecer de seu nome e isso só não acontece por conta de sua forte personalidade, que se manifesta no processo de seu amadurecimento e crescimento. Toda essa maturidade presente em Chihiro chama a atenção de uma figura curiosa: o “sem rosto”. O “sem rosto” é um espírito sem personalidade, sem expressão e sem linguagem, que se deixa cativar de forma amigável com os seres viventes, oferecendo-lhes aquilo que mais desejam no momento.

O “sem rosto” é a simbologia religiosa e filosófica presente no filme. O “sem rosto”, por não possuir uma personalidade ou essência própria, manifesta a personalidade daqueles com quem interage, como uma criança que manifesta seus comportamentos e desenvolve sua linguagem por meio da imitação. Chegando a absorver aqueles com quem interage, ele desenvolve a personalidade, os valores e as características físicas do absorvido. Isso acontece quando ele engole o pequeno sapo ganancioso, tornando-se ganancioso também. O “Sem Rosto” é um espírito puro e bondoso, mas acaba sendo contaminado pelos valores deturpados dos empregados da casa, tornando-se também ganancioso, guloso e consumista. Este ser representa cada um de nós, que vagando pela sociedade, absorve e se constrói, muitas vezes de forma deturpada, de acordo com o meio social em que vive. Como o “sem rosto” acabamos sendo tão influenciados pelo meio que ficamos sem identidade, por isso: sem rosto. Mas se não nos deixamos vencer pelas influências, preservando nossa identidade, ficamos como a Chihiro. E é por esta razão que o Sem Rosto é tão dócil perto dela, pois ele se comporta de acordo com quem se relaciona. Por ter absorvido empregados da casa que são em maioria absoluta gananciosos, o “sem rosto” adquire a mesma personalidade egoísta, se esbaldando em comida e distribuindo ouro para os empregados sob a ausência de Yubaba. Podemos ver que no filme, a ganância e o consumismo são representados pela comida e pela fartura.

 
 

Outro personagem enigmático que chama a atenção para este traço de consumismo é o bebê de Yubaba. Mimado, birrento e chorão, ele desfruta de todas as benesses da mãe, mas sem ter contato social com ninguém e sendo sempre tratado como uma criança indefesa. Pode-se notar que o bebê representa um traço comum da sociedade pós-moderna, que apenas exige e chora por direitos e bens materiais e que é sempre tratada como incapaz e impotente de se virar sozinha. A percepção do bebê com relação a mãe muda quando é transformado por Zeniba em um ratinho, que vê todas as crueldades da mãe ao sair de sua zona de conforto ao acompanhar Chihiro em sua jornada para salvar Haku e seus pais da morte eminente.

 

Em toda a sua jornada neste universo paralelo, Chihiro desperta empatia, amizade, determinação, senso crítico e principalmente, amor. A personagem simplesmente se transforma de uma menina insegura para uma garota forte e determinada em seus objetivos. No desejo ardente de salvar seus pais do destino de virarem comida e de salvar a vida de Haku, com quem criou uma forte ligação e que transformado em dragão, se comprometeu roubando de Zeniba, irmã gêmea de Yubaba, um objeto mágico valioso, ela toma coragem e se compromete em situações dentre as mais perigosas em nome das pessoas que ama e avança frente ao desconhecido para conseguir voltar para casa com seus pais. Este amadurecimento gradativo da personagem revela o gênero principal da trama: “coming of age” e “jornada de herói”. Este tipo de gênero tem como foco narrar o amadurecimento do protagonista, submetendo-o a uma “jornada de herói”, onde encontrará obstáculos, desafios, frustrações, descobertas, vitórias e finalmente sua plenitude como herói, transformado e realizado em sua trajetória. Este tipo de gênero é muito comum na cultura japonesa e foi o ingrediente chefe para o sucesso de Animes como “Naruto” e de obras ocidentais como “O Rei Leão” e “Harry Potter”.  

As 12 etapas da Jornada do Herói são: o mundo comum; o chamado à aventura; recusa do chamado; encontro com o mentor; o enfrentamento do desconhecido; provas, aliados e inimigos; refúgio no esconderijo; a provação; a recompensa; o caminho de volta; a ressurreição; e o retorno com a glória. Chihiro, assim como os protagonistas das obras citadas acima, passam por tudo isso de diferentes formas.

A Jornada do Herói é um dos conceitos que permeiam as grandes histórias, sejam elas da literatura, do cinema ou mesmo das grandes apresentações. Ele surge a partir da análise de Joseph Campbell, em seu livro “O Herói das Mil Faces” e é chamado de “monomito”. Entenda neste vídeo! 

 

Chihiro, em sua jornada, conta com a ajuda de Kamaji e Lin para chegar até a casa de Zeniba, onde devolverá o objeto mágico roubado por Haku. Chihiro parte rumo à casa de Zeniba, enfrentando o desconhecido com coragem e determinação, e ao lado de “sem rosto” que foi curado por ela, voltando à sua forma pura e simples e tornando-se seu fiel amigo.

Zeniba, ao contrário do que dizia Yubaba e seus subordinados, não era uma bruxa má, e apesar de possuir as idênticas características físicas da irmã, ela possui uma visão de mundo e ideologia diferentes, distanciando-se do mundo materialista e ocupando-se com uma vida mais tranquila no campo, longe dos elementos ocidentalizados. Zeniba reconhece a inocência de Haku por perceber que este era mais um escravo subordinado de Zeniba que havia perdido sua identidade e lhe concede o perdão ciente de que o sistema de Yubaba não possui apenas cúmplices, mas também vítimas.

Zeniba também afirma a Chihiro que nada neste mundo podia ser mudado e que sua estrutura não podia ser abalada. Nesta parte fica evidente a mensagem de que a única mudança possível é a interior. Cabia apenas a Chihiro mudar a si mesma para encontrar sentido em sua vida.

 

Com o seu amadurecimento e crescimento espiritual, Chihiro abre os olhos da alma e finalmente enxerga o sentido profundo de Haku em sua vida. Haku na verdade era o espírito do rio Kohaku e que conheceu Chihiro, por tê-la salvado de um afogamento. Esta conexão fica evidente no momento em que se apaixonam, permitindo a Chihiro devolver a Haku sua verdadeira identidade, seu nome, seu próprio eu, permitindo a ele a sua ressuscitação social e a quebra do vínculo com o sistema que não lhe permitia ser quem realmente era.

 

Diante disso, Chihiro atravessa este mundo mágico se transformando a cada momento, cada evento e cada ser que conhece e quando finalmente volta à sua realidade, saindo da caverna que a inseriu neste mundo paralelo (referência ao mito da caverna de Platão) ela encontra a luz e uma nova percepção da realidade. Esta mudança indica a transição da idade e o que vêm com ela, como o primeiro amor, a complexidade feminina e o olhar crítico com relação ao que lhe cerca.

 

Toda essa jornada mística faz de “A Viagem de Chihiro” uma obra única. Também nos lembra uma versão oriental e plenamente filosófica da famosa obra de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”, fazendo referência a alguém que entra pela toca do coelho e descobre um novo mundo repleto de criaturas mágicas e uma rainha tirânica que escraviza seus subordinados. Contudo, muito mais além, Chihiro está repleto de mensagens que nos remetem a uma reflexão profunda acerca dos elementos presentes em nossa sociedade, e trabalha todos estes temas, dentre eles: “capitalismo, ganância, consumismo, identidade e até puberdade”, de forma muito original. É uma obra enigmática e por isso tão fascinante.

 
Ramon Ribeiro - Professor de Letras e Redator

 

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