A economia, a política e a filosofia presentes em O Rei Leão

A economia, a política e a filosofia presentes em O Rei Leão
Obra singular que consagrou a Disney, 'O Rei Leão' carrega em seu enredo elementos engrandecedores sobre identidade, espiritualidade e propósito de vida, além de também tratar de importantes temas como a política e a economia.
 
'O Rei Leão' é uma obra prima ímpar fantástica que marcou a infância de uma geração inteira com seu enredo forte, suas canções cativantes, suas passagens filosóficas e tudo isso acompanhado de boas pitadas de humor, na medida certa. 
Tanto o longa animado de 1994 como o filme em CGI de 2019 transmitem valiosas lições de vida para adultos e crianças. E para quem for mais observador, a história do jovem leão chamado Simba, que foge do reino que herdaria, entregando-o ao seu tio Scar, que matou seu pai, o rei Mufasa, nos passa também valiosas lições de autoconhecimento, propósito, identidade, política e economia. O filme de 2019 soube preservar a essencia do premiado desenho dos anos 90, acrescentando maiores detalhes aos acontecimentos, diálogos mais detalhados e um cenário fascinante e realista, contudo, o maior triunfo desta nova produção se deve ao sucesso em transmitir com clareza estas valiosas mensagens, as quais abordaremos nas próximas linhas. 
 
- Como um rei deve governar
O filme nos apresenta logo no início as exuberantes paisagens das Terras do Reino, onde as mais diversas espécies de animais da África habitam em plena harmonia sob o reinado de Mufasa, o Rei Leão que governa todas essas terras. Todos os animais veneram e se curvam à figura de Mufasa como seu grande rei e contemplam o nascimento do príncipe herdeiro Simba, que é erguido para a multidão de súditos por Rafiki, o sábio macaco daquelas terras e grande sacerdote da família real. 
Mufasa inspira confiança, sabedoria e respeito, e isso lhe confere grande poder. Logo no início é possível notar que as atribuições de um rei vão muito além de se impôr como autoridade. Mufasa ensina ao seu filho Simba que ser um rei é muito mais servir do que ser servido, que é muito mais proteger o que é de todos e principalmente, preservar o equilíbrio e a harmonia da natureza, o qual ele chama de ciclo da vida. É uma tarefa árdua que exige muita disciplina e um constante compromisso com a ética, a moral e o coletivo, pois é necessário administrar em favor de todos os habitantes, sem que ninguém saia perdendo. 
 
Simba ainda não consegue entender direito a complexidade de ser um rei e se imagina futuramente como um soberano que pode fazer o que quiser, sem prestar satisfação a ninguém. Esta visão puramente infantil de Simba é capaz de desviar qualquer governante do senso de justiça, levando-o a praticar corrupção e atos que muitas vezes prejudicam o próprio povo, mas Simba ainda muito jovem. Havia alguém que cobiçava o poder com o mesmo intuito de poder fazer o que quisesse. Este alguém era Scar. Irmão de Mufasa, que perdera o direito a sucessão com o nascimento de seu sobrinho. 
 
- Propósito de vida 
Scar odiava Simba desde o dia de seu nascimento e embora não demonstrasse, tentou matá-lo induzindo o pequeno a se dirigir rumo ao território das esfomeadas hienas que lá habitavam para ser devorado. Simba junto a sua amiga Nala por pouco não foram mortos caso Mufasa não fosse chamado por Zazu, o pássaro calau que serve como mordomo do rei, para afugentar as hienas, assim salvando seu filho. O local onde habitavam as hienas era um cemitério de elefantes e era visivelmente sombrio, improdutivo e sem vida. Lá era o total oposto das terras governadas por Mufasa, onde se respeitava a natureza de forma a preservá-la e não apenas consumí-la até seu último recurso. 
 
Mufasa, após uma breve conversa com Simba, lhe mostrou que a vida ia muito mais além de sua breve existência naquelas terras. Mufasa lhe contou que todos os antigos reis do passado habitavam entre as estrelas, cuidando e zelando pelos reis que agora governam. Mufasa ensina que a vida vai muito além da morte e que sempre temos um propósito a cumprir e um destino após nossa breve passagem na terra. O nobre rei também revelou a seu filho que não ficaria ao seu lado para sempre, mas que zelaria por ele das estrelas. 
 
- Ausência de valores e inveja 
Scar, não tendo sucesso em sua tentativa de assassinato, convoca as hienas para ajudá-lo a matar Mufasa e Simba, conquistando assim o trono como herdeiro legítimo da sucessão. E para conquistar o apoio das hienas neste plano cruel, promete para elas a fartura das Terras do Reino sem nenhuma moderação. Após colocar Simba na mira de uma enorme debandada de guinus, Scar atrai Mufasa para a sua armadilha e depois de ter salvo Simba, Mufasa acaba sendo assassinado por Scar, que o joga do precipício. 
 
 
Simba, desamparado e sem rumo, acaba sendo induzido por Scar a fugir das Terras do Reino para nunca mais voltar e assim o irmão invejoso toma o poder tendo como suas fiéis seguidoras as esfomeadas hienas, que passariam a desfrutar de toda a abudante riqueza do reino sem restrições. 
Apesar de Scar ter ordenado às hienas que o matassem, Simba conseguiu escapar. 
 
- Reinado de Scar: desrespeito à vida e aos súditos 
Scar assume as Terras do Reino herdando a prosperidade de seu antecessor, mas destrói tudo em pouco tempo por conta da exploração demasiada dos recursos e da negligência com o ciclo da vida, responsável pelo sustento de todos os animais. Ao instituir uma caça desregrada para benefício próprio e para saciar o apetite incontrolável das hienas, Scar viola as leis mais sagradas da natureza, e podemos dizer, também da economia. 
Quando se consome muito mais do que a natureza produz, ocorre um desequilíbrio natural na oferta e isso afeta automaticamente a demanda, que entra em declínio. Ou seja, a natureza não consegue suprir o excesso de consumo desenfreado. Pela ótica da economia, o setor produtivo não consegue acompanhar um aumento desenfreado de consumo sem que a própria produção receba investimentos. Se houver muitos incentivos ao consumo, sem haver incentivos à produção de bens de consumo, o mercado em médio ou longo prazo tende a aumentar o preço de sua produção, o que acaba resultando lá na frente num velho conhecido problema: a inflação. A inflação é o aumento dos preços dos produtos para frear o consumo afim de fornecer aos produtores um momento para respirar e produzir com uma velocidade mais reduzida, já que os setores de produção não receberam investimentos. 
 
No espectro político, Scar é muito semelhante a políticos populistas que liberam créditos sem limites para que as pessoas comprem e consumam descontroladamente. Num primeiro momento, isso alavanca a economia e o bem-estar social, mas depois de um tempo, os fornecedores entram em crise por falta de ganhos e acabam elevando o preço para o consumidor final na tentativa de não quebrarem. Os produtores neste caso são representados pela própria natureza, que tem seu próprio ritmo para garantir todos os recursos e bens de consumo para todos os cidadãos, mas que por conta da ganância de alguns que ocupam o poder, acabam sendo explorados até o ponto de se tornarem improdutivos, pela falta de incentivos e pela negligência daqueles que os controlam.   
No caso das Terras do Reino, a natureza cobrou a juros altos o consumo e caça desenfreada. Ao desrespeitar o ritmo da própria natureza, Scar extinguiu recursos que eram importantes para o ciclo da vida e isso acabou tornando a terra improdutiva, fazendo os animais migrarem para outros territórios. O Reinado de Scar tornou-se vazio, escuro e sem vida.   
 
"Quando os justos governam, o povo se alegra; quando os perversos estão no poder, o povo geme." - Provérbios 29:2
 
- Sem propósito de vida 
Condenado ao exílio, Simba atravessara um gigantesco deserto se afastando cada vez mais de seu reino até ser vencido pelo cansaço de tanto caminhar. Pronto para ser servido de alimento aos abutres, é salvo pela dupla dinâmica Timão e Pumba, que ensinam a ele que o sentido da vida é não ter sentido nenhum. Simba aprende com o lema "hakuna matata" que viver sem compromissos ou qualquer responsabilidade é a melhor forma de se viver. 
 
 
O estilo de vida de Timão e Pumba é inspirada na filosofia de Diógenes. Conhecido historicamente como 'O Cínico', o filósofo Diógenes prega a crença de que a autorealização do homem só poderia ser alcançada através do total desapego dos bens materiais e das regras sociais, visando unicamente a busca pelo prazer, sem pudor e sem se importar com o que a sociedade pensa. Os cínicos ficaram conhecidos como aqueles que vivem como cães. Apreciavam a miséria e viviam em função somente de suas necessidades fisiológicas. Eram vistos apenas com um manto dobrado como vestimenta, um bastão para auxiliar nas caminhadas e uma sacola para carregar algum donativo ou alimento. Timão e Pumba com sua máxima "hakuna matata", são a pura representação do cinismo. E vivendo em um paraíso onde havia abundância de recursos naturais e muitos insetos para encher a barriga, Simba aprendeu rápido a viver como um cínico. Mas, ele se afastou de sua missão, de seu propósito de vida, de sua família, e deixou as Terras do Reino por anos sob a tirania de seu malvado tio. 
Quando Nala, em busca de ajuda, encontra Simba, ela nutre nele uma esperança que pensava não mais existir. A leoa voltou a acreditar que Scar poderia cair caso Simba retornasse e reinvindicasse o trono, mas o leão não enxergava mais sentido em exercer o papel de governante, ignorando seu dever e sua responsabilidade. 
 
 
O macaco Rafiki, que batizou Simba, descobre que o mesmo está vivo e parte em sua busca para convencê-lo a retornar às Terras do Reino e restabelecer seu reinado. Rafiki é o chamado para o dever ético, cívico e moral de Simba e representa a filosofia aristotélica da ética e do autoconhecimento, sendo para Simba a chamada "Eudêmia", a voz que guia nossos pensamentos e nossas ações. Segundo Aristóteles, o homem só pode ser ele mesmo em grupo, no convívio da sociedade, pertencendo a uma cultura e civilização. 
“Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável (…) Assim, o homem é um animal cívico”. - Aristóteles 
 
Rafiki resgata em Simba a memória de seu pai Mufasa, chamando-o a cumprir seu dever e assumir o seu lugar no ciclo da vida, fazendo parte e sendo o administrador de algo infinitamente maior do que qualquer propósito individual de vida. E assim, Simba regressa ao reino para enfrentar seu tio e restabelecer seu trono por direito. 
 
- Lembre-se de quem você é! 
Simba, ao enfrentar novamente Scar, tem também que enfrentar os fantasmas de seu passado, superando a culpa da morte de seu pai e impondo-se ao seu tio como o legítimo rei. A queda de Scar se concretiza unicamente pela ação de suas aliadas, as hienas, que ao perceberem que eram também desprezadas pelo rei rejeitado, atacaram-no e devoraram-no. 
 
Aqui, é possível constatar que muitas vezes, especialmente na política, as alianças que fazemos podem ser fatais e significar a nossa ruína e que a ética e o apego aos valores morais é que devem nortear a política e nossos governantes, por mais difícil e sacrificado que possa ser. Infelizmente, nossos governantes são tentados a fazerem alianças com hienas, esfomeadas, sedentas por poder e insaciáveis por recursos públicos; em troca de popularidade, governabilidade e perpetuação no poder. 
Simba restabelece o seu reino guiado pelas mesmos ideais de seu pai Mufasa, respeitando o ciclo da vida, a natureza, a liberdade e servindo e protegendo a todos os animais. 
 
Aqui, nos é ensinado que um governante só pode fazer um governo justo se for dotado de valores éticos e respeito pela vida e pelo que é de todos. Foi isso que fez de Simba um rei tão justo quanto seu próprio pai Mufasa.   
O Rei Leão é uma das obras mais queridas do mundo devido à sua essencia, sua filosofia, suas valiosas lições de vida e seus cenários exuberantes e personagens cativantes. Uma obra que tem muito a nos ensinar a cada vez que assistimos. E isso o torna um clássico!
Escrito por Ramon Ribeiro
Redação Bem Estar Ouro Fino

 

Relembre a abertura do filme live-action de 2019

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